Por Erick Tedesco (Texto originalmente publicado dia 20 de fevereiro de 2026 no Le Monde Diplomatique Brasil)
Caminhar por Santiago, a capital do Chile, é percorrer uma cidade escrita em camadas, onde o asfalto das avenidas modernas repousa sobre um passado que insiste em cantar e um presente que impacta todos os sentidos em frações de segundos.
Vigiada pela majestosa cordilheira dos Andes, essa metrópole sul-americana, aliás, a mais moderna e pulsante de todo continente, além da história e do turismo, também se vê, sente e compreende pela música produzia em suas diferentes vertentes e distintas eras.
Ela ecoa nos palcos e espaços culturais do centro e em bairros, nas ruelas neoclássicas de Paris-Londres, no olhar minucioso em meio ao silêncio da natureza e no reverbo da memória.
Da psicodelia folclórica progressiva dos Los Jaivas ao grito seco e humilde de resistência de Victor Jara, e do misticismo ancestral de Pascuala Ilabaca à vanguarda pop de Javiera Mena, cada esquina é um setlist e, cada monumento, uma estrofe de um Chile que se reconstrói, se reinventa e se impõe.

Crédito: David Pozo/WIkimedia Commons
O pulso de Providencia: as ruas entre o pop e o rock
O ponto de partida ideal é Providencia, o bairro onde a Santiago moderna resolve sua rotina e o coração da capital bate com mais força.
Caminhar por Providencia é sentir o contraste entre o ritmo acelerado dos centros financeiros e a calmaria das ruas arborizadas que escondem cafés, livrarias, galerias, bares e o comércio urbano. É o epicentro geográfico e cultural que conecta o centro histórico ao setor oriente, funcionando como um grande terminal de ideias.
É aqui, entre o urbanismo do MUT (Mercado Urbano Tobalaba), um projeto que integra o fluxo do metrô à vida comunitária, o imponente e sempre visível Costanera Center e as prateleiras da Disquería Chilena (atualmente dentro do MUT), que se sente o que pulsa através de uma linhagem que une gerações: a música, a cultura chilena.
Neste cenário, a cantora e compositora Javiera Mena brilha como o ícone do neo pop chileno. Ela arquitetou uma estética eletropop que colocou o Chile no radar global e transformou a melancolia em pistas de dança inteligentes.
Ao lado dela, Gepe e Ana Tijoux definem o tom das ruas. Enquanto Gepe funde batidas digitais com o imaginário andino, Tijoux é a voz que sintetiza o protesto urbano com um hip hop visceral. Suas rimas em faixas como 1977 ou Somos Sur explicam a Santiago pós-2019; ouvir Ana Tijoux enquanto se observa a arte de rua revela que a música chilena contemporânea documenta o conflito em tempo real.
E se Javiera Mena também é o brilho que reflete nos vidros de Sanhattan (apelido para o centro financeiro de Las Condes, ali do lado de Providencia, que mistura o nome de Santiago com Manhattan), a base desse som está ao sul, no bairro de San Miguel. Mas atenção: são locais bem distantes, apesar de uma peregrinação necessária fora do eixo principal.
Foi lá que Jorge González, o líder dos Los Prisioneros, provou que o rock chileno poderia ser mais que diversão: era crônica social. Visitar o Museo a Cielo Abierto de San Miguel e ver seu rosto imortalizado em murais de 15 metros de altura é entender que a música de Santiago também nasce do concreto e da urgência suburbana. González é o elo perdido entre a revolução acústica de Victor Jara, que falaremos mais adiante, e o sintetizador de Mena.
Bairro Itália: refúgio analógico
Deste núcleo moderno, a caminhada estende-se naturalmente para o Barrio Italia. Se Providencia é o motor, o Italia é o refúgio analógico da cidade. Originalmente um reduto de imigrantes e artesãos, o bairro preserva suas fachadas baixas e pátios internos que hoje abrigam o maior reduto de sebos de discos de Santiago.
Percorrer a Calle Italia ou a Avenida Condell é um exercício de garimpo histórico; nas galerias e lojas especializadas, o vinil é a moeda de troca. É o lugar para encontrar as prensagens originais de Los Prisioneros, a banda que deu voz à juventude dos anos 80 sob a ditadura, ou as harmonias psicodélicas de Los Bunkers e a sofisticação de Los Tres.
O Barrio Italia estabelece o balcão de trocas onde o público e o colecionador confrontam versões e catalogam a discografia que moldou a identidade chilena.
Caminhando em direção ao centro, o Cerro Santa Lucía oferece a pausa necessária. O lugar revela um labirinto de escadarias de pedra, fontes neoclássicas e terraços suspensos sobre o caos da Alameda.
Ao subir até o Castillo Hidalgo, o olhar do historiador encontra os marcos de onde Pedro de Valdivia fundou a cidade em 1541. Entre o amarelo-ocre das construções e o verde que insiste em brotar da rocha, observa-se o choque direto entre a herança colonial e a metrópole que ferve logo abaixo.
Ali perto, no bairro Lastarria, a La Tienda Nacional funciona como um QG da cultura local, oferecendo uma curadoria de livros e vinis de nomes como Dënver, um duo electro-pop, que explicam o país além dos guias oficiais e sintetiza, em sons, o ritmo de uma Santiago que está sempre com um pé no frenético e outro pé na calmaria.
Boêmia em Bellavista
Ao cruzar o rio Mapocho, a artéria de águas cor de chumbo que separa o centro administrativo da efervescência boêmia, chega-se ao bairro Bellavista.
Localizado aos pés do Cerro San Cristóbal, o bairro é um enclave de arquitetura colorida e espírito rebelde, onde o grafite cobre as fachadas de antigos casarões transformados em ateliês, bares e teatros. É o refúgio intelectual de Santiago, onde a vida noturna se mistura à história acadêmica e artística, servindo como o pulmão criativo da cidade.
Este recorte da vida cultural santiaguina abriga a La Chascona, uma das três casas de Pablo Neruda. Construída em níveis sobre a encosta para sua amada Matilde Urrutia, a casa tem o formato de um navio, refletindo a obsessão do poeta Nobel pelo mar e pelos objetos que contam histórias.
Visitar esse refúgio ouvindo a obra-prima Alturas de Machu Picchu é entender como Los Jaivas deram sonoridade às pedras andinas com sua psicodelia progressiva.
O grupo, originário de Viña del Mar, transcende o conceito de banda para se tornar uma instituição cultural. Ao musicar os versos de Neruda no emblemático álbum Alturas de Machu Picchu (1981), os Los Jaivas realizaram uma síntese sem precedentes: uniram a bateria vigorosa e os sintetizadores do rock setentista ao sopro ancestral das zampoñas e o repique do charango. Eles explicam a geografia do Chile através do som: suas composições emulam a imponência da cordilheira e o isolamento do deserto.
Essa imersão na identidade chilena não se encerra nas paredes da La Chascona; ela se expande verticalmente. Logo na saída da casa, a topografia de Bellavista impõe a subida ao Cerro San Cristóbal, seja pelos trilhos do funicular histórico de 1925 ou pelas trilhas que serpenteiam o Parque Metropolitano.
O cume oferece uma perspectiva imperdível e linda de Santiago: do alto, sob o olhar da estátua da Imaculada Conceição, a cordilheira parece abraçar a cidade, e é nesse silêncio das alturas que a música de Nano Stern encontra seu espaço.
Stern é o multi-instrumentista que personifica a renovação da canção chilena no século XXI. Ao ouvir faixas como La Raíz enquanto se observa a imensidão de Santiago lá embaixo, percebe-se como ele funde o vigor do rock e do jazz com o violão clássico e a rabeca, mantendo viva a chama da Nueva Canción sem ficar preso ao passado. Stern é o elo que faz a ponte entre o chão de rua e o horizonte: ele entende que a modernidade de Santiago não anula o seu DNA andino.
O DNA da capital: do ancestral ao político
Após a vista panorâmica do San Cristóbal, o retorno ao plano da cidade exige um mergulho nas camadas mais profundas da identidade chilena. Essa ligação com a terra é profunda no Museo de Arte Precolombino, localizado em um imponente edifício colonial no coração histórico, a poucos metros da Plaza de Armas, o marco zero da cidade, com igrejas, museus e prédios imponentes e antigos no entorno.
O museu guarda a famosa Múmia de Chinchorro, que antecede em milênios as múmias egípcias. Nas suas galerias, o olhar historiador volta-se para os instrumentos ancestrais: o trutruca e as flautas de cerâmica ali expostos têm os mesmos timbres que a banda Los Jaivas utilizam há seis décadas, unindo o passado remoto ao presente elétrico.
É o mesmo fôlego que alimenta a obra de Pascuala Ilabaca, artista que resgata a rítmica andina e o folclore de raiz para o século 21.
Ouvir Pascuala é perceber que a ancestralidade chilena não é uma peça de museu estática, mas uma força sonora que continua a pulsar através de acordeons e cantos que reverberam a herança de Violeta Parra.
A base de tudo: memória e resistência
O Centro, coração geográfico e político de Santiago, já foi cenário de guerra na década de 1970, mais especificamente em 1973, quando ruas nos arredores do Palácio La Moneda, a sede do governo, foram invadidas por tanques, além do suporte de caças que sobrevoaram e, todos juntos, bombardearam o prédio para forçar, de um modo extremo, diga-se, que o então presidente Salvador Allende fosse deposto.
Hoje, quem caminha pela Plaza de la Constitución encontra um cenário que, embora marcado por essas cicatrizes históricas, respira uma paz institucional preservada. O Palácio La Moneda, restaurado de sua ruína física, permanece como o centro do poder executivo, mas agora compartilha seu terreno com o Centro Cultural La Moneda (CCLM).
Localizado no subsolo da praça, o anexo é um espaço democrático de exposições, cinema e arte, enterrando metaforicamente o peso do prédio oficial para dar lugar à luz da cultura contemporânea.
Em frente ao palácio, o monumento ao Salvador Allende ergue-se como um marco indelével dessa transição; a estátua, com o olhar fixo no horizonte, simboliza o retorno da democracia e a institucionalização da memória.
O local está pacificado, ocupado por turistas e trabalhadores que cruzam a esplanada diariamente, mas a presença da guarda palaciana e a solenidade do entorno lembram que a paz de Santiago é um exercício cotidiano de não esquecimento. É nesse equilíbrio entre o trauma e a vida que a cidade se reconstrói.
A poucos quarteirões dali, o cenário muda bruscamente: entra-se no bairro Paris-Londres, um enclave urbanístico da década de 1920 com ruas estreitas e sinuosas, pavimentadas com paralelepípedos e cercadas por um casario de estilo europeu que rompe a ortogonalidade do centro.
No entanto, a estética refinada tem sua célula da resistência chilena, hoje aberta à visitação. Na rua Londres 38, um antigo casarão que servia de sede ao Partido Socialista foi transformado pela DINA (a polícia secreta do regime) em um dos primeiros e mais brutais centros de detenção, tortura e extermínio após o golpe de 11 de setembro de 1973.
O silêncio sepulcral que emana das pedras de Paris-Londres explica o grito e a urgência do Quilapayún e do Inti-Illimani. Estes grupos foram os pilares da Nueva Canción Chilena, um movimento que resgatou a dignidade dos instrumentos andinos, como a quena e o charango, para dar voz ao compromisso social.
O Quilapayún, com seus ponchos pretos e harmonias vocais austeras, imortalizou El Pueblo Unido Jamás Será Vencido, canção que se tornou o hino global da resistência.
Ao seu lado, o Inti-Illimani trouxe o virtuosismo instrumental em obras como Hacia la Libertad, provando que a música era a única fronteira que a ditadura não conseguia fechar. Ambos foram lançados ao exílio, transformando-se nos embaixadores da denúncia contra as violações dos direitos humanos em palcos por toda a Europa.
Nesta mesma linhagem de resistência intelectual, surge a figura gigante de Patricio Manns. Músico e escritor, Manns fundiu a luta política à beleza lírica em composições como Arriba en la Cordillera, uma obra que sobrevive ao tempo por sua capacidade de traduzir a solidão do exílio e a geografia espiritual do Chile. Suas letras são fundamentais para sentir Santiago porque carregam a melancolia de quem viu a cidade ser tomada, mas nunca desistiu de narrá-la.
No entanto, o símbolo máximo desta era é Victor Jara. Professor, diretor de teatro e músico, Jara foi preso e assassinado no antigo Estádio Chile (hoje Estádio Victor Jara) nos primeiros dias do golpe.
Sua obra El Derecho de Vivir en Paz, originalmente dedicada à resistência vietnamita, foi ressignificada e tornou-se a trilha sonora absoluta das ruas de Santiago durante o Estallido Social de 2019.
Jara é fundamental porque sua voz continua tátil nas ruas; ele representa a memória que não se apaga e a prova de que a canção é mais duradoura que o aço dos tanques. Entender esses artistas é entender a alma de Santiago: uma cidade que canta para não esquecer, transformando o trauma em um compromisso inegociável com os direitos humanos.
Direitos Humanos, do Chile para as Américas
Essa trajetória é preservada no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, inaugurado em 2010. Sua estrutura de vidro e cobre parece flutuar sobre a praça, abrigando um arquivo sóbrio sobre as violações cometidas entre 1973 e 1990. É um espaço de silêncio necessário, peça-chave para entender a reconstrução da democracia na América Latina.
A música aqui é onipresente: nas gravações dos festivais de solidariedade, nos hinos entoados clandestinamente nas prisões e na instalação sonora que reproduz o pulsar do coração de quem resistiu.
Visitar o museu é necessário para quem deseja entender a Santiago atual: um lugar onde a memória é mantida viva para que a música nunca mais precise ser um grito de socorro, mas sim a celebração da liberdade conquistada.
Neste corredor da memória que é o museu, o silêncio também é preenchido pelo som do Illapu. Se Victor Jara é o símbolo do que foi tirado dos cidadãos chilenos, o Illapu é o símbolo do que resistiu e voltou.
O grupo, que também conheceu o exílio, sintetiza o encontro da rítmica andina com a urgência urbana de Santiago. Canções como Vuelvo para Vivir tornaram-se hinos não apenas da resistência, mas da reconstrução emocional de um povo que precisava reaprender a ocupar suas próprias ruas.
Ao ouvir o som de suas quenas e zampoñas ecoando perto da esplanada do museu, compreende-se que a memória no Chile não é apenas um arquivo de fatos, mas uma melodia que se recusa a ser silenciada.
Vale ainda mencionar o GAM (Centro Cultural Gabriela Mistral), em um prédio histórico da cidade: construído para a UNCTAD III (Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em 1972, serviu de sede ao governo militar logo após o golpe, até 1981. Hoje, devolvido ao público, o GAM é ocupado por jovens que ocupam a cidade com a liberdade que seus antecessores sempre defenderam.
O mapa dos shows: onde o som acontece
A noite em Santiago acontece em palcos que guardam a poeira das décadas e refletem a diversidade da sua arquitetura sonora. O roteiro começa pelo Teatro Municipal de Santiago, no centro histórico. Inaugurado em 1857, é o principal palco de ópera e ballet do país, uma joia neoclássica onde a acústica impecável serve de base para a tradição clássica chilena.
De lá, a rota segue para a região do Parque O’Higgins, que abriga a Movistar Arena. Considerada uma das arenas com melhor infraestrutura da América Latina, é o local onde o rock de estádio e as grandes turnês globais ganham contornos épicos sob sua cúpula icônica.
Para quem busca a identidade alternativa da cidade, a Blondie, localizada no subsolo da Alameda (estação Los Héroes), é uma parada obrigatória. Instalada em um antigo cinema, é o epicentro da cultura clubber, do post-punk e do synth-pop, funcionando há décadas como um refúgio de liberdade estética.
Já em Providencia, o Mi Bar, na rua Santa Isabel, estabelece-se como o QG do rock direto, um espaço intimista e visceral onde o público respira o mesmo ar que a banda.
Essa jornada completa-se nos palcos que são instituições da resistência cultural. A La Batuta, na Plaza Ñuñoa, permanece como o templo do rock independente onde cada show carrega a memória das décadas passadas.
No bairro Bellavista, o Bar Loreto e o Club Chocolate garantem a proximidade física com o que há de novo na cena, enquanto os históricos Teatro Caupolicán (na rua San Diego) e o Teatro Cariola mantêm a aura das grandes apresentações de médio porte.
São nestes espaços que o roteiro se fecha entre um setlist e uma cerveja artesanal, conectando o visitante ao pulso real da rua.
Erick Tedesco é jornalista e historiador.
