‘El pueblo unido jamás será vencido’, a canção chilena que virou hino mundial da luta popular

Jorge Coulon, fundador do Inti-Illimani, fala sobre a canção que atravessou o golpe chileno, o exílio e as fronteiras da América Latina como símbolo de unidade popular

Por Erick Tedesco

“El pueblo unido jamás será vencido” nasceu em 1973, no Chile de Salvador Allende. A canção composta por Sergio Ortega e difundida pelo Quilapayún passou pelo golpe militar de 11 de setembro, pelo exílio, pelas campanhas de solidariedade internacional e pelas ruas de muitos países até se tornar uma das palavras de ordem mais reconhecíveis da luta popular no século 20.

No 1º de Maio, Dia do Trabalhador, seu refrão carrega uma pergunta que continua aberta. Em sociedades marcadas por desigualdade, medo, precarização, novas extremas direitas e fragmentação política, o que ainda pode unir o povo?

Para Jorge Coulon, um dos fundadores do Inti-Illimani, banda histórica chilena, da mesma época do Quilapayún e que também ajudou a difundir a música na década de 1970 em diante, a força da canção está menos na lembrança de uma época e mais no problema que ela ainda impõe ao presente.

O músico chileno, cuja banda ainda ajudou a internacionalizar o repertório da Nueva Canción Chilena durante o exílio, vê no hino uma formulação simples, quase incontornável, mas difícil de realizar historicamente.

“O povo unido jamais será vencido é uma espécie de axioma. É assim, é indesmentível. Agora, o problema que segue disso é como unir o povo. Isso já é outro problema, e é aí que começam as dificuldades”, diz Coulon, em entrevista exclusiva.

 

Do Chile de Allende ao exílio

A frase nasceu ligada ao projeto da Unidade Popular, à mobilização social dos anos Allende e à presença da música nas ruas como parte de um processo político em curso. Depois da queda do governo socialista e da instalação da ditadura de Augusto Pinochet, passou a carregar outra camada: tornou-se hino do exílio, da resistência à repressão e da denúncia internacional contra o regime chileno.

Embora a canção não seja de autoria do Inti-Illimani, sua trajetória se cruza com a da banda. Fundado em 1967, o conjunto estava fora do Chile quando ocorreu o golpe e foi impedido de voltar ao país. Instalado na Itália, passou a atuar como uma das vozes mais conhecidas da cultura chilena no exterior. Em seus discos, concertos e viagens, ajudou a levar ao mundo a sonoridade política da Nueva Canción, feita de instrumentos andinos, poesia, tradição popular e compromisso latino-americano.

Nesse percurso, “El pueblo unido jamás será vencido” deixou de ser apenas uma canção chilena. Tornou-se uma senha de reconhecimento. Foi cantada em atos sindicais, assembleias estudantis, manifestações contra ditaduras, campanhas democráticas, encontros de solidariedade e protestos de diferentes matizes à esquerda. O espanhol do refrão ultrapassou a língua. Mesmo quando não traduzida, a frase passou a dizer algo reconhecível: povo, unidade, luta, derrota recusada.

Um hino de unidade

Coulon afirma que a canção continua reaparecendo em lugares distantes do Chile de 1973. Conta que, há poucos dias, ouviu o hino nas ruas de Minneapolis. Cada reaparição, diz, recoloca a memória de Sergio Ortega, compositor que dedicou parte decisiva de sua obra à causa popular.

“Sempre que escutamos, pensamos em Sergio Ortega, que é o compositor dessa canção, um companheiro que sempre colocou sua música a serviço da causa popular. Acho que o melhor prêmio que ele pode ter recebido, não importa onde esteja, porque morreu há vários anos, é que sua canção se tornou um hino de unidade, até mesmo mais do que de resistência”, afirma.

A distinção importa. Resistir pode ser um gesto de defesa. Unir exige construção política. No 1º de Maio, data marcada pela memória das greves, da organização coletiva, da repressão a trabalhadores e da conquista de direitos, “El pueblo unido jamás será vencido” toca no ponto mais difícil das lutas sociais: transformar sofrimento disperso em força comum.

Jorge Coulon, fundador do Inti-Illimani, em entrevista à Tedesco Mídia

Jorge Coulon, fundador do Inti-Illimani, em entrevista à Tedesco Mídia


Unir o povo

A canção tem forma de marcha, força de coro e vocação de palavra de ordem. Mas seu poder não está apenas na repetição. Está no impasse que ela enuncia. O povo pode existir como categoria social, como maioria explorada, como multidão indignada ou como memória de uma derrota. Nada disso garante unidade. A unidade precisa ser criada, disputada e sustentada.

“Há muitas coisas que unem o povo, mas não necessariamente em função de um objetivo político nem de um objetivo social. O futebol une o povo, mas uma vez que termina o partido, voltamos às divisões sociais, à injustiça, à repressão, voltamos à vida real. Sem dúvida que o povo unido não pode ser vencido, mas a questão de hoje é como unir o povo e em torno a quê unir o povo”, diz Coulon.

Uma canção chilena que ganhou o mundo

A circulação da canção mostra como uma obra política pode ultrapassar sua origem sem perder a marca do tempo em que nasceu. “El pueblo unido jamás será vencido” ganhou versões em diferentes idiomas, foi incorporada a repertórios militantes fora da América Latina e chegou à música de concerto nas variações para piano compostas pelo norte-americano Frederic Rzewski em 1975. Ainda assim, seu centro permanece chileno e latino-americano: a memória de um projeto popular interrompido pela violência militar.

No Chile, o hino remete à Unidade Popular, ao golpe, à ditadura, ao exílio e à longa disputa pela memória democrática. Fora do Chile, tornou-se linguagem comum de sindicatos, partidos, estudantes, movimentos sociais e frentes de solidariedade. No Brasil, a versão em português atravessou greves, atos de rua, mobilizações estudantis e manifestações da esquerda. Sua permanência não depende apenas da música, mas da repetição histórica das condições que a tornam reconhecível.

Cultura como resistência

Para Coulon, a cultura não precisa declarar-se resistência para resistir. Ela resiste porque organiza modos de vida, vínculos, memória e convivência. Em sua leitura, a cultura guarda a possibilidade de uma relação mais justa entre as pessoas e entre os povos.

“A cultura, de alguma forma, é resistência em si mesma. É resistência porque a cultura é a forma como os seres humanos convivem. Convivem entre nós, convivem com nosso entorno, convivem com a natureza”, afirma.

Essa ideia atravessa a história do Inti-Illimani. A banda nasceu em Santiago, cresceu no ambiente da Nueva Canción Chilena e se tornou uma das formações mais conhecidas do movimento. Depois do golpe, viveu o exílio na Itália e fez da distância uma forma de presença política. Seus integrantes não cantavam apenas a perda do país. Cantavam também a permanência de uma memória que a ditadura tentava apagar.

Uma ponte entre gerações

Quase seis décadas depois, Coulon define o papel do Inti-Illimani como o de uma ponte. A palavra aparece sem grandiloquência. Ponte entre gerações, entre história e presente, entre o Chile do exílio e a América Latina de agora. A formação atual da banda, com músicos de idades diferentes, também expressa essa passagem.

“Acredito que uma responsabilidade é tratar de ser uma ponte. Uma ponte geracional, em primeiro lugar, e uma ponte também com a história. Se algo se acumula em uma carreira longa como a nossa, de quase 60 anos, é responsabilidade com a história que se vive”, afirma.

Coulon evita transformar a trajetória do Inti-Illimani em lição. Não fala como quem reivindica autoridade moral sobre o presente. Prefere a ideia de testemunho. A experiência, diz, pode ser compartilhada, não imposta.

“Temos uma experiência que compartilhar. Em nenhum caso que impor, ou colocar como exemplo. Os exemplos, como os conselhos, não servem para nada”, diz.

O Chile de Kast

Coulon ainda falava de um governo que acaba de começar. José Antonio Kast tomou posse como presidente do Chile em 11 de março de 2026 e inicia seu segundo mês no comando de um país atravessado pela memória da ditadura, pelo desgaste institucional e pela reorganização da direita em torno de segurança, imigração, ordem pública e redução do Estado.

A eleição de Kast recolocou o Chile diante de uma direita que reivindica ruptura mais profunda com o ciclo anterior. Para Coulon, o avanço da extrema direita devolve à cultura uma responsabilidade histórica. Ao comentar o cenário que se anunciava antes da posse, ele apontava o tom agressivo da campanha e a promessa de uma mudança radical.

“Desde Pinochet, não governa a ultradireita. Mas o modo e a publicidade que este governo que vai entrar fez foram muito agressivos. Eles falaram de uma mudança radical, de um governo de emergência, de todas essas coisas aterrorizantes”, afirma.

Com Kast já instalado em La Moneda, a fala deixa de ser apenas advertência prévia. Passa a ler o início de um novo ciclo chileno. Coulon aproxima esse momento de outras experiências recentes da direita radical, como Javier Milei, na Argentina, e Donald Trump, nos Estados Unidos.

“Se eles cumprem sua promessa, como cumpriu, de alguma forma, Milei, ou como cumpriu Trump, é para se preocupar. Quer dizer que estamos nas portas de uma mudança muito radical que vai requerer muita cultura, ou seja, muita resistência”, diz.

A pergunta que volta ao 1º de Maio

A canção volta, então, ao centro da questão política. No Chile do segundo mês de governo Kast, “El pueblo unido jamás será vencido” soa mais do que só memória da Unidade Popular ou resistência à ditadura, porque é cantada ao redor do país em shows do Inti-Illimani e do Quilapayún,

Além disso, os versos ainda ecoam no presente. Que forças ainda podem produzir unidade popular quando o medo, a insegurança, o desalento e a precariedade disputam a imaginação política das maiorias?

A música como idioma comum

Coulon encontra parte da resposta na própria música latino-americana. Para ele, a música permite encontro porque funciona como idioma comum. Não existe uma única música latino-americana, mas uma trama de raízes africanas, árabes, europeias e indígenas. A diversidade, diz, é a fonte de sua força.

“A música sempre é uma possibilidade de encontro, porque a música é um idioma. Quando falamos de música latino-americana, estamos falando de raízes muito diferentes, mas que se uniram em uma árvore muito frondosa”, afirma.

“El pueblo unido jamás será vencido” pertence a essa síntese. Não apenas ao Chile, nem apenas à geração que viveu o golpe e o exílio. Pertence aos trabalhadores que ainda a cantam, aos jovens que a reencontram nas ruas, aos povos que reconhecem no refrão uma promessa difícil e aos artistas que seguem tratando a cultura como forma de intervenção pública.

No 1º de Maio, a canção soa como reflexão e seu refrão continua forte porque expõe a tarefa que permanece, ao que parece, infelizmente, eternamente inconclusa à classe trabalhadora. Mas mostra, por outro lado, que o povo, nem tanto unido, ainda não foi vencido e a história insiste em devolver a pergunta que Jorge Coulon coloca no centro do presente: como unir o povo, em torno de quê e para qual futuro.

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