Mon Laferte, maior artista chilena da atualidade, volta a São Paulo neste sábado

Cantora se apresenta no Espaço Unimed, com repertório que aproxima jazz, bolero, cabaré e pop alternativo em uma das fases mais ambiciosas de sua carreira, promovendo o álbum Femme Fatale

Por Erick Tedesco

A cantora chilena-mexicaa Mon Laferte volta ao Brasil neste sábado (16) com um show no Espaço Unimed (Rua Tagipuru, 795 – Barra Funda), em São Paulo, que apresenta a fase mais teatral e arriscada de uma artista que passou a última década ampliando os limites da canção latino-americana sem se afastar do drama popular que a tornou conhecida. A apresentação está agendada para começar às 22h.

A turnê “Femme Fatale” nasce do álbum homônimo lançado em 2025 e muda a temperatura de sua obra recente. A Mon que aparece nesse repertório não abandona o bolero, o desamor, a voz rasgada e o melodrama que atravessam sua discografia, mas desloca tudo para um cenário mais denso, quase cinematográfico, em que jazz, cabaré, pop alternativo, bolero e música latina se encontram sob luz baixa.

A narrativa de Femme Fatale

O disco tem 14 faixas que passam pelo desejo, ironia, ressentimento, sensualidade, teatralidade e uma consciência muito clara da personagem que conduz a narrativa. A ideia de “femme fatale”, em Mon Laferte, é usada como conflito. A mulher que atravessa o álbum seduz, sofre, desafia, ri da própria tragédia e ocupa o centro da cena sem pedir licença.

Músicas de toda carreira

No palco, esse universo ganhou uma encenação mais elaborada do que a de turnês anteriores. Nos shows recentes da “Femme Fatale Tour”, Mon tem conduzido o repertório como um espetáculo dividido por climas, com entradas dramáticas, interlúdios, mudanças de postura corporal e momentos em que a apresentação se aproxima do teatro musical. Não é um show apoiado somente na força vocal, embora essa continue sendo sua marca mais imediata. É uma apresentação em que gesto, figurino, luz, personagem e repertório trabalham na mesma direção.

A abertura da turnê tem colocado canções como “Mi Hombre”, “Femme Fatale”, “Tormento” e “Veracruz” logo na entrada desse ambiente mais sombrio. Depois, aparecem faixas como “El Gran Señor”, “La Tirana”, “Pornocracia”, “Esto Es Amor”, “Ocupa Mi Piel”, “Hasta Que Nos Despierte La Soledad”, “Melancolía” e “Otra Noche de Llorar”. A performance de “1:30”, em registros recentes, chama atenção pelo uso físico do corpo em cena, com Mon cantando sobre uma esteira, imagem que combina com o desgaste emocional e a tensão permanente do disco.

As participações do álbum também ajudam a medir a amplitude dessa fase. “Femme Fatale” reúne Nathy Peluso, Conociendo Rusia, Tiago Iorc, Natalia Lafourcade e Silvana Estrada, nomes de diferentes pontos da música latino-americana contemporânea. Em vez de funcionar como uma coleção de convidados, o disco usa essas presenças para reforçar a circulação de Mon por territórios distintos: a canção íntima, o bolero de ruptura, o pop latino, a música de raiz, a teatralidade e a construção de personagem.

A crítica internacional destacou esse movimento. A Pitchfork tratou “Femme Fatale” como um trabalho em que Mon leva a voz a extremos de interpretação. O El País aproximou o álbum do cabaré, do jazz e de uma tradição de mulheres dramáticas da música latina, em diálogo com figuras como La Lupe e com o imaginário de “Cabaret”, musical em que Mon interpretou Sally Bowles no México. Essa passagem pelo teatro ajuda a entender a nova turnê. Há, no show atual, uma artista menos interessada em apenas defender repertório e mais disposta a construir atmosfera.

Cartaz do show em SP

Cartaz do show em SP


Hinos de desamor

O espetáculo, porém, não deixa de lado as canções que transformaram Mon Laferte em uma das artistas centrais da música latina dos últimos anos. “Tu Falta de Querer”, lançada em 2015 no álbum “Mon Laferte Vol. 1”, segue como um ponto de virada. A música nasceu de uma experiência de ruptura amorosa e encontrou uma forma direta, quase brutal, de dizer abandono, orgulho ferido e perda. Foi com ela que Mon deixou de ser apenas uma cantora de grande voz para se tornar uma intérprete reconhecida pela capacidade de transformar dor pessoal em canto coletivo.

“Amárrame”, parceria com Juanes, levou essa projeção a outro território. A faixa, lançada em “La Trenza”, venceu o Latin Grammy de Melhor Canção Alternativa em 2017 e ainda concorreu em categorias centrais como Gravação do Ano e Canção do Ano. Com sua mistura de cumbia, pop e acento andino, a música mostrou que Mon podia operar dentro de uma estrutura popular sem diluir a personalidade autoral. Era uma canção de alcance amplo, mas com sotaque, corpo e identidade.

“Mi Buen Amor”, gravada com Enrique Bunbury, consolidou outra face importante de sua obra: a balada de abandono em chave melodramática, cantada sem vergonha do excesso. Ao lado de “Amor Completo”, “Tormento”, “Flaco” e “Si Tú Me Quisieras”, a faixa forma o núcleo sentimental que muitos fãs esperam ouvir ao vivo. São músicas de amor desfeito, entrega e sobrevivência emocional, sempre sustentadas por uma interpretação que parece buscar a fratura antes do acabamento.

Esse repertório explica por que Mon Laferte ocupa um lugar particular na música da América Latina. Nascida em Viña del Mar, no Chile, e radicada no México, ela construiu uma carreira que não cabe em uma única etiqueta. Passa pelo bolero, pelo rock, pela ranchera, pela cumbia, pelo blues, pelo pop, pelo jazz e pela música de raiz latino-americana sem soar como artista de fusão calculada. O que organiza sua obra não é o gênero, mas a intensidade da interpretação e uma escrita que parte de experiências reconhecíveis: amor, raiva, corpo, perda, desejo, memória e afirmação.

Mon Laferte ao vivo em abril de 2026

Mon Laferte ao vivo em abril de 2026

De Viña del Mar ao mundo

O reconhecimento institucional acompanhou essa expansão. Mon soma cinco Latin Grammys e 22 indicações ao prêmio, além de três indicações ao Grammy norte-americano. A presença em premiações, festivais e projetos de prestígio ajudou a consolidar uma imagem rara: artista popular, com repertório de grande alcance, mas também respeitada pela crítica e por circuitos mais exigentes da música contemporânea.

Essa circulação ganhou novos marcos nos últimos anos. Mon já passou pelo Tiny Desk, plataforma da NPR que se tornou uma vitrine global para artistas de diferentes países e gêneros, e também levou sua música ao Lollapalooza Chile, onde apresentou um repertório que cruzava fases distintas da carreira. Em 2026, voltou ao Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, um dos palcos mais simbólicos da América Latina, como atração de grande reconhecimento da edição. Para uma artista nascida na cidade, a apresentação teve peso de consagração pública e de retorno biográfico.

Viña del Mar sempre foi mais do que um festival para a música latina. É um palco de validação popular, televisiva e simbólica. A volta de Mon a esse espaço, já como nome internacional, reforçou a dimensão de sua trajetória: uma artista que saiu do circuito chileno, encontrou no México um território decisivo de expansão e voltou à sua cidade natal com repertório, prêmios, público e linguagem própria.

É esse percurso que chega agora a São Paulo. A apresentação deste sábado reúne a Mon dos grandes refrões de desamor e a artista de “Femme Fatale”, mais teatral, mais noturna e mais interessada em tensionar o formato tradicional de show. O público brasileiro deve encontrar uma cantora que não trata o palco apenas como lugar de execução musical, mas como espaço de personagem, atmosfera e confronto emocional.

A realização é da Music On Events, que repete a parceria iniciada em 2025.

Serviço

Mon Laferte: Femme Fatale Tour

Data: 16 de maio de 2026 (sábado)
Local: Espaço Unimed
Endereço: Rua Tagipuru, 795, Barra Funda, São Paulo/SP
Abertura dos portões: 20h
Início do show: 22h
Ingressos: de R$ 190 a R$ 540
Vendas: Ticketmaster (ticketmaster.com.br)
Classificação: 18 anos. Menores de 18 anos apenas acompanhados dos responsáveis legais.

 

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