Artigo | Erick Tedesco
A Lei da Anistia de 1979 perdoou torturadores, sequestradores e assassinos fardados, e o golpe de 1964 segue impune até hoje. Os generais que derrubaram João Goulart morreram em casa, com pensão e honras militares. Em 2025, pela primeira vez na história da República, um ex-presidente e generais foram condenados por uma tentativa de golpe de Estado, a de 2022. Jair Bolsonaro, criminoso condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, é o principal nome desse julgamento histórico. Flávio Bolsonaro quer a Presidência para anular essa conquista e devolver o país à impunidade.
O senador diz isso abertamente. Prometeu na Avenida Paulista que o pai subiria a rampa do Planalto ao seu lado em janeiro de 2027. À Folha, condicionou o apoio da família a qualquer candidato ao compromisso com o indulto e falou em “uso da força” caso o Supremo derrubasse o perdão. Depois, mentindo como sempre, disse que não se tratava de ameaça. A candidatura de Flávio não tem projeto de país. Tem um plano para soltar um bandido condenado, e esse bandido é o próprio pai.
Uma família de criminosos
Os Bolsonaro são todos desqualificados para a vida pública, e dois deles já foram condenados pela Justiça. Jair passou a carreira inteira exaltando a ditadura. Negou que ela tenha existido, homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e disse que o erro do regime foi torturar e não matar. Nunca foi punido por nada disso e chegou à Presidência, um absurdo que nenhuma democracia séria deveria tolerar. No poder, chefiou uma organização criminosa que tramou anular a eleição de 2022, incitou acampamentos golpistas em frente a quartéis e lavou as mãos enquanto seus seguidores destruíam as sedes dos Três Poderes no 8 de janeiro. Antes disso, governou durante uma pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros, sabotando a vacinação, empurrando cloroquina e imitando pessoas com falta de ar. Um homem tão cruel não é perseguido político. É um golpista e um criminoso, e o lugar dele é a cadeia.
Eduardo Bolsonaro, um traidor da pátria que fugiu. Abandonou o mandato que recebeu dos eleitores de São Paulo, mudou-se para os Estados Unidos e foi implorar ao governo de Donald Trump sanções contra ministros do Supremo para tirar o pai da prisão. Quem pagou a conta foi o trabalhador brasileiro, com o tarifaço sobre as exportações. Condenado a 4 anos e 2 meses por coação no curso do processo, Eduardo perdeu o mandato por faltas e vive no exterior porque sabe que seria preso ao desembarcar no Brasil. Um deputado que conspira com um governo estrangeiro contra o próprio país é traidor da pátria e covarde.
Flávio, o desqualificado
Flávio passou quase vinte anos na Assembleia Legislativa do Rio e só deixou escândalo. O caso das rachadinhas expôs salários de assessores devolvidos ao gabinete, movimentações em dinheiro vivo, uma loja de chocolates apontada pelo Ministério Público como engrenagem de lavagem e Fabrício Queiroz, o operador do esquema, escondido na casa do advogado da família em Atibaia. Flávio foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Escapou porque as provas foram anuladas por questões processuais, não porque provou inocência. Em 2021, já senador, comprou uma mansão de quase 6 milhões de reais em Brasília, um patrimônio difícil de explicar para quem vive de salário de parlamentar.
No Senado, Flávio manteve a mesma vida política pífia e vergonhosa. Não apresentou nenhum projeto relevante, não exerceu nenhuma liderança e não formulou nenhuma ideia própria. É um desqualificado que só existe na política por causa do sobrenome e usa o mandato para uma única missão: blindar uma família de criminosos. É também um mentiroso compulsivo. Chama de farsa um processo com provas documentais e delação premiada, chama de pacificação o perdão a um golpista e chama de análise de cenário uma ameaça ao Supremo. Quem mente desse jeito em campanha vai mentir muito mais com a caneta presidencial na mão.
O elo com a milícia
A relação dos Bolsonaro com a milícia do Rio de Janeiro não é boato de rede social. Está registrada em discursos, em homenagens oficiais e em folha de pagamento. O nome central dessa história é Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público do Rio como chefe da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel. Em 2005, Flávio entregou a Adriano a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio, quando o miliciano estava preso preventivamente pelo homicídio de um guardador de carros. Flávio admitiu ter ido à prisão para fazer a entrega. Foi a segunda homenagem que seu gabinete prestou a Adriano. O mesmo Flávio homenageou o major Ronald Paulo Alves Pereira, outro alvo da operação que desmontou a milícia de Rio das Pedras.

foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
A mãe e a mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio na Alerj, contratadas por intermédio de Fabrício Queiroz, que servira com o miliciano no 18º Batalhão da PM. A mulher ficou no cargo de 2007 a novembro de 2018. A mãe, de 2016 a novembro de 2018. As duas saíram no mesmo dia, um mês depois de Flávio ser eleito senador. Segundo o Ministério Público, contas controladas por Adriano abasteciam Queiroz no esquema das rachadinhas. O dinheiro da milícia e o dinheiro do gabinete passavam pelas mesmas mãos.
Jair Bolsonaro também deixou suas digitais. Em 2005, subiu à tribuna da Câmara para atacar a condenação de Adriano pelo assassinato de um lavador de carros que havia denunciado a ação de milicianos, chamou o réu de “brilhante oficial” e contou que foi a um tribunal do júri pela primeira vez na vida só para acompanhar o julgamento. Quinze anos depois, já presidente, disse que Adriano era um herói da Polícia Militar e admitiu ter orientado o filho a condecorá-lo. Ao longo da carreira, Jair chegou a defender publicamente as milícias. Adriano foi morto em fevereiro de 2020, numa operação policial na Bahia, e a própria defesa dele levantou a suspeita de queima de arquivo. Para completar o retrato, Ronnie Lessa, o ex-PM que confessou ter executado a vereadora Marielle Franco, morava no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo de Jair, que disse não se lembrar do vizinho.
Nenhum Bolsonaro jamais foi julgado por essas relações. Medalha para miliciano preso, parentes de miliciano na folha de pagamento, discurso em defesa de miliciano na Câmara e o executor de Marielle morando na mesma rua: tudo isso foi tratado como coincidência por um sistema que sempre soube proteger essa família. É esse o grupo que Flávio quer levar de volta ao Planalto.
O roteiro de Trump
Não é preciso adivinhar o que acontece quando um político desse tipo volta ao poder com sede de vingança. No primeiro dia do segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump perdoou ou reduziu a pena de cerca de 1.500 condenados pela invasão do Capitólio, inclusive líderes de milícias sentenciados por conspiração. Os Bolsonaro copiam Trump em tudo, e Flávio já avisou que vai copiá-lo também nisso.
Com Flávio presidente, o golpista sairia da cadeia aplaudido, o traidor desembarcaria perdoado e o Supremo passaria a viver sob ameaça por ter cumprido a Constituição. Pai e filhos voltariam juntos ao centro do poder, com a máquina do Estado nas mãos e contas a acertar com quem os julgou. Para quem enterrou parentes na pandemia e para quem viu a democracia por um fio em janeiro de 2023, seria um terror psicológico. Seria a volta da impunidade de 1979, agora a serviço de uma família.
Os Bolsonaro tratam o Estado como propriedade privada, o dinheiro público como mesada e a Justiça como inimiga. São desqualificados, golpistas, mentirosos e criminosos, e não existe eufemismo capaz de suavizar isso. Votar em Flávio é assinar com a própria mão o indulto de um bandido. O Brasil nunca puniu os golpistas de 1964 e ainda permitiu que um admirador de torturador chegasse à Presidência. Agora que finalmente condenou uma tentativa de golpe, não pode desfazer isso numa eleição.
Erick Tedesco é jornalista e historiador.
