Futebol e poder: a final da Copa e a história dos impérios

Espanha x Argentina e França x Inglaterra levam à reta decisiva da Copa de 2026 países enriquecidos pela colonização e uma antiga colônia marcada pela concentração de terra, pela violência contra indígenas e pela dependência econômica

Por Erick Tedesco

A Copa do Mundo de 2026 termina com uma combinação histórica pouco comum. Espanha e Argentina disputam o título neste domingo, 19 de julho, no estádio de Nova York/Nova Jersey. Na véspera, França e Inglaterra entram em campo pelo terceiro lugar, em Miami. Os dois jogos reúnem três antigas potências coloniais europeias e uma nação sul-americana que rompeu com a Monarquia Hispânica, mas conservou parte das desigualdades criadas sob seu domínio.

A presença desses quatro países na reta final permite discutir uma história que a celebração esportiva costuma deixar fora do enquadramento. Espanha, França e Inglaterra não se tornaram potências apenas pela capacidade de suas instituições, pela industrialização ou por alguma suposta superioridade europeia. Seus Estados e suas elites acumularam riqueza com a conquista de territórios, o trabalho forçado, a escravização de africanos, a apropriação de terras e a transferência de recursos das colônias para os centros imperiais.

A colonização também não terminou por completo quando as bandeiras europeias foram retiradas. A independência criou novos Estados, mas preservou hierarquias econômicas, raciais e sociais formadas durante séculos. O sociólogo peruano Aníbal Quijano chamou esse fenômeno de “colonialidade do poder”: o domínio colonial acaba formalmente, enquanto a classificação racial da população, a concentração da riqueza e a divisão internacional do trabalho continuam organizando as relações entre centro e periferia.

Espanha x Argentina não deve ser reduzida, portanto, a uma final entre colonizador e colonizado. A definição identifica a origem da relação, mas esconde duas questões importantes. A primeira é que a Espanha construiu parte de seu poder com a exploração das Américas. A segunda é que a elite argentina, depois da independência, manteve privilégios herdados da sociedade colonial e voltou a aplicar contra indígenas e trabalhadores a lógica de conquista que havia combatido para se separar de Madri.

O território da atual Argentina pertenceu inicialmente ao Vice-Reino do Peru. Em 1776, passou a integrar o Vice-Reino do Rio da Prata, unidade administrativa criada pela Coroa espanhola com sede em Buenos Aires e formada também por áreas dos atuais Uruguai, Paraguai e Bolívia. Madri queria controlar melhor o Atlântico Sul, ampliar a arrecadação e proteger seus interesses comerciais diante do avanço de outras potências europeias.

Esse sistema tinha como base a subordinação econômica da colônia. A Coroa controlava rotas, cobrava tributos e organizava a produção de acordo com as necessidades do império. A prata extraída de Potosí, no atual território boliviano, circulava por redes comerciais que atravessavam o espaço do Rio da Prata e abasteciam a economia europeia. A riqueza deixava a América; a coerção e os custos humanos permaneciam no continente.

Quando a invasão napoleônica afastou Fernando VII do trono espanhol, em 1808, a crise chegou às colônias. A Revolução de Maio de 1810 e a declaração de independência das Províncias Unidas, em 1816, nasceram da disputa sobre quem poderia exercer autoridade na ausência do rei. A ruptura não produziu imediatamente uma nação unificada. O território foi disputado por Buenos Aires e pelas províncias, por centralistas e federalistas e por projetos rivais de poder.

A independência afastou Madri, mas não distribuiu terra, renda ou participação política. O espanhol continuou como língua dominante, o catolicismo manteve peso institucional e famílias proprietárias conservaram influência sobre a economia e o Estado. Povos indígenas, negros, mestiços, camponeses e trabalhadores que participaram das guerras não receberam uma parcela equivalente do poder conquistado.

A Espanha, enquanto isso, perdia a maior parte de suas possessões continentais nas Américas. A redução do império não significou uma revisão moral da colonização. Cuba, Porto Rico, Filipinas e outros territórios permaneceram sob domínio espanhol até o fim do século XIX, e possessões africanas sobreviveram por mais tempo. A exploração colonial continuou onde Madri ainda tinha força militar para impô-la.

Na Argentina independente, a construção do Estado avançou sobre territórios indígenas. Entre o fim da década de 1870 e os primeiros anos da seguinte, a chamada Conquista do Deserto ocupou os pampas e a Patagônia. O nome ajudava a apresentar como vazio um espaço habitado por mapuches, ranqueles, tehuelches e outros povos. Eles foram mortos, capturados, deslocados ou submetidos. Mulheres e crianças acabaram separadas de suas comunidades e distribuídas como mão de obra doméstica. Parte da historiografia argentina classifica a campanha como genocídio.

As terras tomadas não foram divididas de maneira ampla entre a população. Grandes extensões passaram ao Estado, a militares e a proprietários privados. A campanha ampliou a fronteira agropecuária e fortaleceu uma classe de grandes donos de terra com acesso direto ao poder político. O Estado argentino adotava contra os povos originários o mesmo argumento usado pelas potências europeias em outros continentes: a violência seria necessária para levar civilização, progresso e produção econômica a territórios descritos como atrasados.

A Argentina tornou-se independente da Espanha, mas suas elites assumiram o lugar do colonizador dentro das novas fronteiras. O indígena foi tratado como obstáculo. O negro teve sua presença reduzida ou apagada da memória nacional. A imagem oficial do país, branco e europeu, ganhou força com a imigração em massa e ocultou as populações que não cabiam no projeto defendido pelos dirigentes de Buenos Aires.

Entre o fim do século XIX e o início do XX, milhões de europeus, principalmente italianos e espanhóis, chegaram ao país. Essa imigração transformou a população e a vida urbana, mas ocorreu dentro de uma economia organizada para exportar produtos primários. Carne, trigo, lã e cereais saíam pelos portos, enquanto bens industrializados e capitais vinham das potências econômicas.

A Inglaterra ocupou uma posição central nesse modelo. Empresas e investidores britânicos controlaram ferrovias, portos, frigoríficos, bancos e serviços urbanos. O mercado britânico comprava parte importante da produção argentina e vendia bens manufaturados ao país. As linhas férreas, apresentadas como símbolo incontestável de modernização, foram construídas principalmente para conduzir mercadorias das regiões produtoras aos portos, e não para integrar de maneira equilibrada o território nacional.

Esse arranjo beneficiou tanto o capital estrangeiro quanto os grandes proprietários argentinos. A dependência não foi imposta apenas de fora. Foi negociada e sustentada por elites locais que enriqueciam com a exportação de produtos agrícolas, a valorização da terra e a abertura aos investimentos europeus. O crescimento econômico conviveu com concentração fundiária, endividamento externo, relações precárias de trabalho e diferenças cada vez maiores entre Buenos Aires e parte do interior.

O conceito de “império informal” foi usado para definir a presença britânica na Argentina porque não houve anexação territorial. A expressão, porém, pode parecer branda diante do poder exercido por empresas, bancos e diplomatas estrangeiros sobre setores decisivos da economia. O controle não precisava de uma administração colonial quando contratos, dívidas, ferrovias e comércio exterior já garantiam influência suficiente.

Essa relação ajuda a entender por que a independência política não significou autonomia econômica. A América Latina deixou de obedecer diretamente às coroas ibéricas, mas continuou ocupando no mercado mundial o lugar de fornecedora de matérias-primas e compradora de produtos industrializados. A riqueza produzida na periferia alimentou empresas e centros financeiros estrangeiros, enquanto a estrutura agrária concentrada mantinha milhões de pessoas afastadas da propriedade e das decisões políticas.

O futebol chegou ao Rio da Prata pelas mesmas redes que transportavam capital, mercadorias e trabalhadores britânicos. Navios, escolas inglesas, companhias ferroviárias e comunidades de imigrantes difundiram o jogo codificado na Inglaterra. A expansão do esporte acompanhou o império e seus interesses comerciais, ainda que não tenha resultado de uma política oficial planejada em Londres.

Os argentinos, no entanto, não permaneceram como espectadores de um esporte estrangeiro. Clubes de bairro, trabalhadores e comunidades de imigrantes se apropriaram do futebol e o retiraram dos círculos britânicos. Criaram rivalidades, vocabulário, estilos e formas próprias de torcer. Um produto da expansão inglesa tornou-se parte da cultura popular argentina.

Essa mudança contém uma contradição importante. O futebol circulou pelos caminhos do capitalismo imperial, mas escapou ao controle de quem o levou. Inglaterra, Espanha e França já não poderiam determinar sozinhas seu significado ou conservar a superioridade esportiva. Países submetidos à colonização ou à dependência econômica passaram a derrotar as antigas potências dentro de campo.

A primeira Copa do Mundo, disputada no Uruguai em 1930, já mostrou esse deslocamento. O país-sede conquistou o título, e a Argentina ficou com o vice-campeonato. Nas décadas seguintes, argentinos, brasileiros e uruguaios formaram tradições capazes de enfrentar e vencer as seleções europeias. A Europa continuava a concentrar dinheiro e poder institucional, mas havia perdido o monopólio sobre a excelência no jogo.

A própria organização internacional do futebol reproduziu parte dessa desigualdade. A Fifa reuniu federações de diferentes continentes, mas o comando do esporte e sua riqueza permaneceram por muito tempo concentrados na Europa. Hoje, clubes europeus continuam atraindo jogadores formados na América Latina e na África. Talentos produzidos em bairros pobres e estruturas esportivas periféricas são convertidos em ativos de equipes que atuam nos mercados mais ricos.

A Argentina chega à final de 2026 como tricampeã mundial e atual detentora do título. A Espanha, campeã em 2010, representa o país que dominou grande parte do território americano durante três séculos. As duas seleções entram em campo sob as mesmas regras, mas as sociedades que representam foram formadas por uma relação profundamente desigual. O futebol pode suspender essa diferença durante uma partida. Não pode apagá-la.

França e Inglaterra carregam histórias coloniais igualmente violentas. Durante séculos, as duas potências disputaram territórios, rotas comerciais, populações escravizadas e fontes de matérias-primas. A Guerra dos Sete Anos, encerrada em 1763, ampliou a vantagem britânica na América do Norte e na Índia. O Império Britânico cresceu com guerras, ocupações, expulsões, repressão a revoltas e destruição de economias locais.

A defesa britânica do livre-comércio também atendia a interesses bastante concretos. Londres exigia a abertura de mercados estrangeiros enquanto protegia setores estratégicos e usava sua força naval para garantir rotas, contratos e investimentos. A linguagem da liberdade comercial escondia uma relação desigual: países periféricos forneciam alimentos e matérias-primas, contraíam dívidas e compravam produtos de maior valor fabricados no centro industrial.

A França empregou métodos semelhantes. A ocupação da Argélia, iniciada em 1830, tomou terras, destruiu comunidades e submeteu a população local a um regime que separava colonos europeus e argelinos. O império francês avançou sobre outras áreas da África, do Sudeste Asiático, do Caribe e do Pacífico. Trabalho forçado, repressão militar e hierarquias raciais acompanharam o discurso oficial de missão civilizadora.

A palavra “civilização” serviu para dar aparência moral à conquista. Os povos colonizados eram apresentados como atrasados, incapazes de governar a si mesmos e dependentes da tutela europeia. Com esse argumento, ocupação militar, catequese, apropriação de terras e exploração do trabalho ganhavam o nome de progresso. A Europa se colocava como medida universal da humanidade depois de retirar de outros povos o direito de definir o próprio futuro.

O fim dos impérios formais não encerrou essas relações. Empresas europeias conservaram acesso a recursos naturais, mercados e contratos nos antigos territórios coloniais. Dívidas, acordos comerciais e interferências políticas restringiram a autonomia de países recém-independentes. As formas de controle mudaram, mas a divisão entre centros que concentram capital e periferias que fornecem trabalho barato e matérias-primas continua presente.

A colonização também modificou as sociedades europeias. Migrações vindas da África, do Caribe e da Ásia transformaram França e Inglaterra, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Filhos e netos de famílias originárias dos antigos territórios coloniais passaram a defender as seleções nacionais das antigas metrópoles.

Essa presença costuma ser celebrada como prova de diversidade, sobretudo quando os jogadores vencem. A aceitação, porém, tem limites. Atletas negros e descendentes de imigrantes são incorporados ao orgulho nacional nas vitórias e expostos ao racismo quando erram ou quando se posicionam politicamente. A camisa da seleção não elimina as disputas sobre cidadania e pertencimento que atravessam as sociedades francesa e inglesa.

Espanha, Argentina, França e Inglaterra chegaram às primeiras posições da Copa por seu desempenho. Os resultados não podem ser explicados pelo colonialismo. A competição, porém, reúne países situados em lados diferentes de uma história baseada na conquista, na transferência de riqueza e na criação de hierarquias raciais que ainda pesam sobre a distribuição mundial de poder.

A Argentina tampouco ocupa uma posição de inocência. Sofreu o domínio espanhol, subordinou sua economia ao capital estrangeiro e, ao mesmo tempo, construiu um Estado que expropriou indígenas, concentrou terras e protegeu os interesses de uma elite agroexportadora. Sua desigualdade não foi produzida apenas na Europa. Resultou da associação entre interesses estrangeiros e grupos locais dispostos a conservar riqueza e poder.

Uma vitória argentina não reparará a colonização. Um título espanhol não absolverá a antiga metrópole. França e Inglaterra também não deixarão no passado os crimes de seus impérios porque suas seleções atuais expressam sociedades mais diversas. A Copa define campeões; não distribui terras, devolve riquezas ou corrige séculos de exploração.

Ainda assim, o futebol oferece uma imagem que os impérios jamais pretenderam produzir: antigas metrópoles e países periféricos submetidos às mesmas regras, expostos à possibilidade real da derrota. Fora do estádio, essa igualdade continua muito distante.

Erick Tedesco é jornalista e historiador.

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