Com posse de Kast, Chile põe fim a eixo político vigente desde Pinochet

Por Erick Tedesco (Texto originalmente publicado dia 11 de março de 2026 na edição impressa e online do O Globo)

Em Santiago, na capital chilena, quando José Antonio Kast atravessar o pátio de La Moneda em 11 de março para iniciar seu governo, a cena vai marcar uma virada já em andamento na história política do país andino. A posse formal ocorre em Valparaíso,
cidade litorânea sede do Legislativo, mas é naquele prédio, bombardeado em 1973 para derrubar o governo de Salvador Allende e abrir a ditadura de Augusto Pinochet, que o Chile deixará de se explicar politicamente pelo plebiscito de 1988 e passará a operar com
outro marco recente, formado no ciclo constituinte de 2019 a 2022 e completo agora, com Kast.

O simbolismo é importante para o Chile, afirma Cristóbal Bellolio, cientista político e apresentador do popular podcast Animales Políticos. O La Moneda será ocupado por um presidente que votou pelo ‘Sim’ em 1988, no plebiscito em que o ‘Não’ derrotou o general Pinochet e é o marco da redemocratização do país. “Durante trinta anos, a clivagem democrático-autoritária foi o eixo da política chilena. Bastava saber como alguém votou em 1988 para entender seu lugar no sistema”, afirma Bellolio.

“O que aconteceu agora é que essa clivagem perdeu centralidade. Não desapareceu moralmente, mas deixou de organizar o comportamento eleitoral do Chile.”

Kast no encerramento da campamnha

Kast no encerramento da campanha em Concepción

Bellolio aponta 2022 como novo gatilho de memória recente. “A política se reorganizava, então, em torno de refundação versus restauração. Kast é herdeiro direto da rejeição à nova Constituição que este ciclo constituinte tentou implementar durante o governo de Gabriel Boric”.

A proposta surgiu após o estallido social de 2019 e uma Convenção Constitucional convocada para substituir a Carta herdada da ditadura, mas foi rejeitada por ampla maioria, num revés que também expôs a dificuldade do governo de Boric em transformar
mobilização em sustentação duradoura.

Para Dario Quiroga, sociólogo chileno especializado em comportamento eleitoral e dinâmicas de movimentos sociais, ali ocorreu uma “inflexão estrutural”. “O estallido social foi um momento de erupção política muito potente, mas também caótico. Depois se construiu um relato muito eficaz que associou aquele ciclo à desordem permanente, gerando desgaste profundo na esquerda”, afirma.

Leia a matéria completa n’O Globo.

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