Por Erick Tedesco
O turismo em cidades que conservam arquitetura e costumes de colonizadores é bastante praticado no Brasil, país que recebeu – e ainda recebe – imigrantes de todo o mundo, desde os ibéricos nos primeiros séculos pós-descobrimento até asiáticos, além dos essenciais italianos e alemães.
Na serra de Itatiaia, município do Rio de Janeiro, próximo à Resende e Volta Redonda, existe Penedo, um pequeno distrito turístico que congrega características de colonizadores europeus, no entanto, diferente de quaisquer outros imigrantes que começaram uma nova vida em terras tupiniquins: Penedo é uma pequena Finlândia nos Trópicos.
Países de climas antagônicos, Brasil e Finlândia nunca tiveram relações históricas e o início da colônia nórdica também passou longe da diplomacia político-econômica, no entanto, se deu após a Grande Guerra, a 1ª Guerra Mundial, catástrofe que fez cidadãos de todo o planeta refletirem sobre o futuro.
O filandês Toivo Unskalio, fundador de Penedo, sentiu a tensão na Europa já no final dos anos 1920 e idealizou um ambiente para o que chamava de Homem Melhor, isto é, uma região de clima tropical, com alimentação vegetariana e onde pudesse plantar árvores frutíferas, tarefas que seriam de responsabilidade de cada pessoa disposta a trocar a gelada e cinza Finlândia pelo calor e ainda pouco desenvolvido Brasil.
Início do povoamento
Foi em 1929 que o primeiro grupo de imigrantes, entre 20 e 30 pessoas, chegou à colônia, na antiga Fazenda Penedo. Antes de assumirem compromisso com a empreitada de Unskalio, assistiram palestras, responderam questionários e foram escolhidos quem realmente estava disposto ao recomeço no Novo Mundo. Os anos passaram o estilo de vida naturalista não prosperou. “O que planejaram não deu certo. Um pedaço da fazenda foi vendido”, conta Soile Viitaniemi Peltola, filha de finlandeses da primeira geração em Penedo.
No entanto, os finlandeses continuaram no local e o contato maior com os brasileiros dos arredores deu novo fôlego a Penedo. Na década de 1950, as tradições artesanais e as convidativas saunas da colônia já eram atrativos turísticos e por isso muitas casas de famílias finlandesas viraram pensões. E não tardou para aparecer o primeiro hotel, o Chácara das Duas, fundado por Helmi Lindell e Vivi Ramstadf num casarão do século 19.
O casarão foi onde começou o Baile Finlandês, encontro aos sábados à noite para finlandês e não-finlandeses dançar, conversar, enfim, socializar. O tradicional baile existe até hoje, mas agora acontece ao lado, uma vez por mês no Clube Finlândia. Já o casarão, depois de outras administrações, fechou e foi reativado em 2013 como um espaço para eventos, especialmente para casamentos.
Conforto
Restaurantes, assim como hotéis e pousadas, tem para todos os gostos e bolsos em Penedo. Um das hospedagens mais tradicionais é o Hotel Girassol, logo na entrada do distrito, na avenida principal, com diferentes tamanhos e opções de quartos em chalés coloridos, sala de jogos, área de piscina com bar no deck e playground para crianças numa enorme área verde. O café da manhã é farto, com variedade de bolos, pães, frutas e sucos, além do essencial café e cereais. Os arredores do hotel são calmos e o descanso é prazeroso e garantido.
O repouso é necessário para as atividades matinais em Penedo. O período matutino é ideal para passeios a cavalo, pônei, de charrete, quadriciclos ou fazer trilhas em matas nativas até cachoeiras, como a das Três Bacias.
A empresa From Penedo oferece todos estes atrativos, sempre com guias-instrutores. No caso das cavalgadas, são todos cavalos Mangalarga Marchador, mansos e treinados para conduzir o turista em duas opções: trilha em propriedade particular, com parada opcional para banho de cachoeira (existem várias), ou passeio em campo aberto com vista para a Serra da Índia. As saídas são sempre às 10, 12, 14 ou 16 horas. Caso preferir ficar na base da empresa enquanto espera alguém voltar do passeio, a opção é se divertir com os cachorros que vivem por lá.
Finlândia carioca
Outros passeios matinais ou vespertinos tornam a estadia em Penedo valiosa, como o Museu Eva Hilden da Cultura Finlandesa de Penedo, ao lado do Clube, com objetos e informações sobre tudo o que se pode imaginar a respeito da Finlândia. Dos bordados aos alces, das vodkas à tecnologia, tudo devidamente divido. Tem também obras de arte, tanto de artistas finlandeses como penedenses. Existe lá outro museu, o Eila e Martti Ampula.
É possível saber sobre o típico bordado finlandês e técnicas de tecelagem com o carioca de Ipanema Rodrigo Monteiro, conhecido como O Tecelão. Nome conhecido em redes socais de todo o globo, Rodrigo conta que aprendeu o ofício na década de 1980 com uma finlandesa e anos depois já tinha a tecelagem como seu emprego. “O que caracteriza a tecelagem são as cores e os motivos, é tudo bem colorido, com animais”, explica ele no ateliê caminhando entre os vários teares e onde vende o que produz, além de dar aulas a aspirantes a tecelões. “Uso dois teares, um finlandês, que eu mesmo construí, e outro alemão”, conclui.
Outro passeio indispensável é a Pequena Finlândia, um complexo de lojas no coração de Penedo, cuja arquitetura remete a casas típicas finlandesas, todas coloridas. A convidativa galeria foi fundada em 1998 e arquitetada por Sérgio Fagerlande, filho de Alva Fagerlande, a primeira criança nascida na colônia. Além das casas tem um bosque, que separa as duas partes do local por uma ponte.
“É como uma réplica de cidadezinhas da Finlândia”, explica Ricardo Sato, o síndico. Tem até a réplica de uma sauna, de teto com grama, um isolante natural, onde funciona uma loja. “O calor da sauna mantém a grama viva”, conta Sato.
A Pequena Finlândia é, obviamente, a morada de um dos mais icônicos símbolos finlandeses, o Papai Noel. A Casa do Papai Noel é mais uma parada turística obrigatória, uma réplica da original no Pólo Ártico. No interior, tem um trenó com quase 150 anos, doado pelo governo finlandês. Tem ainda cartas enviadas por crianças de todo o Brasil, “todas respondidas”, enfatiza Sato. A Casa fica aberta para visitas guiadas durante o ano inteiro, exceto às quartas-feiras.
Come-se bem!
Imperdível e irresistível também é a Tonttulakki, que em finlandês significa “gorro do gnomo”, uma referência ao ajudante do Papai Noel. A loja existe desde 2000 e é uma sociedade de Sato com Ricardo Leite, e ambos são minuciosos quanto à produção de deliciosos chocolates, 100% de origem belga, ou seja, o melhor chocolate do mundo. São comercializadas linhas infantis, diet, salame de chocolate, séries temáticas (datas comemorativas do ano) e as novidades do exterior, como o crocante com sucrilhos e as ramas argentinas.
“O clássico da Tonttulakki é o chocolate de brigadeiro”, revela Leite. Todos os recheios são feitos por eles, exceto um ou dois. Não deixe de experimentar a versão Penedo do Ferrero Rocher. No período do inverno, são mais de 80 variedades.
À parte dos doces, come-se muito bem no almoço e na hora da janta em Penedo, com opões de cozinha contemporânea no Jardim Secreto, comida japonesa e o típico ceviche peruano no Yanug ou no concorridíssimo Pequena Suécia, um anexo ao hotel do mesmo nome, onde aos sábados tem show de jazz.
